Estamos a chegar ao fim do ano, um longo ano aqui no blog, repleto de leituras e descobertas. Hoje, vim falar dos meus preferidos deste ano!
Livros
Dizem-me os meus apontamentos que li 68 livros este ano, espero não ter perdido nenhum na contagem. Não consegui reduzir as minhas leituras a um Top 3, como tencionava: fiz um Top 5, muito a custo. Muitos livros óptimos ficaram por falar. Mas vamos lá…
1º Lugar
Lolita – Vladimir Nabokov
Este não é um livro fácil de ler. Não é um livro que recomende a toda a gente. É um livro pesado, sobre um tema ainda mais pesado, que faz revirar estômagos. Mas, ainda assim (sobretudo assim), é um livro muito bom.
A história é vista pelo olhar de um homem adulto, padrasto de Lolita, pedófilo, que abusa dela.
Em certos momentos temos de nos relembrar a nós próprios desse aspecto. Não fora a idade de Lolita e a forma como o padrasto fala dela poderia levar-nos a crer que isto é uma história de amor. Uma bonita história de amor. Mas não é.
Livro na Wook
“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”
(in Lolita)
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2º Lugar
Bichos – Miguel Torga
Neste livro encontramos 14 contos do fantástico autor português Miguel Torga, contos esses que, de uma forma ou de outra, são sobre bichos. É um livro que nos prende logo no prefácio (muito bom!) e nos mantém agarrados à leitura até ao fim. Voltei várias vezes atrás, ao acabar um conto, só para o reler de novo, de tão bons que eram. E cada leitura é diferente da anterior! Espectacular!
Livro na Wook
“Suava em bica. Escorria das fontes às solas dos pés. O sol já não estava a pino. Ia caindo, agonizante, para os lados do Marão. A última dor morrera há um segundo, ou há horas, ou há semanas? Não sabia. Sabia, sim, que o sofrimento se apagara de uma vez e a deixara, como deixa o cortiço o enxame que parte. Nem um som, nem a presença duma aragem a quebrar a solidão que a cercava. Apenas num céu em fim de incêndio um mormaço cerrado.”
(in Bichos)
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3º Lugar
Bestiário de Kafka
Mais um livro com histórias sobre animais, desta vez do mirabolante Kafka. Primeiro, há a dizer que esta edição da Bertrand editora é linda: capa dura e com ilustrações. Depois, que contêm contos de Kafka que, até agora, nunca tinham sido traduzidos para o português.
Contêm o inigualável A Metamorfose, claro, e muitos outros. Um livro cheio de metáforas e espicaçadelas à nossa sociedade, fácil de ler e que vale muito a pena ter na estante.
Livro na Wook
“Aquilo que consegui, nunca o teria conseguido se me tivesse aferroado teimosamente às minhas origens, às minhas evocações da juventude. “
(in Bestiário)
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4º Lugar
Os Loucos da Rua Mazur – João Pinto Coelho
Este livro traz-nos um olhar diferente sobre a II Grande Guerra Mundial, um olhar que não se foca na guerra, nas mortes nem no campo de concentração, um olhar que é mais um olhar à vida e à sobrevivência das pessoas comuns. Como pode um cego reconhecer alguém que não fala? Quanto tempo dura um amor? Aqui, conhecemos as personagens num tempo bem anterior à guerra. Conhecemos as suas dores, as suas dificuldades e alegrias. Vemo-los crescer. Só depois surge o rumor da guerra, que não se demora. No fim vem a vida posterior à tragédia, à separação.
Livro na Wook
“O vermelho é sempre quente, diz, e esbofeteia-me para provar que a dor é uma mancha encarnada. Tenho de saber que o verde das reinetas de setembro azeda debaixo da língua e cheira como as florestas que cercam o shtetl; a terra é castanha, mas torna-se escura quando chove, e os paus ardidos no inverno são da cor dos fatos dos homens e do cabelo da minha mãe. São pretos, insiste, como o negrume que vejo em todas as horas do dia. Mas eu não vejo, Eryk, nem sequer o negrume. Como te explico que a escuridão não é igual ao nada?”
(in Os Loucos da Rua Mazur)
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5º Lugar
O Ministério da Felicidade Suprema – Arundhati Roy
Arundhati Roy não é uma autora fácil de ler. Se o que procuram é uma leitura fácil e rápida, esqueçam. Mas é uma leitura que vale muito a pena.
Aqui conhecemos a história de Anjum, uma Hijra cujo maior sonho é ser mãe; de um bebé encontrado no meio do lixo; de um pai que escreve uma carta à filha; e de muitas outras personagens, num universo exótico e efabulado. É uma história sobre os mais profundos sentimentos indianos, sobre justiça e injustiça, sobre desistir e sobre ter esperança. Lindo.
Livro na Wook
“A que casta pertenço? É essa a vossa pergunta? Com uma agenda politica tão grande como a minha, digam-me, a que casta deveria pertencer? De que casta eram Jesus e Gautam Buddh? De que casta era Marx? De que casta era o profeta Maomé? Só os hindus têm estas castas, esta desigualdade incluída nas suas escrituras. Sou tudo excepto um hindu.”
(in O Ministério da Felicidade Suprema)
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Séries
1º Lugar
La Casa de Papel
Sem dúvida a melhor série a que assisti este ano. Já faz meses e por vezes ainda dou comigo a trautear o Bella Ciao.
Aqui conhecemos a história de El Professor, um homem misterioso que planeia um assalto à Casa da Moeda em Espanha, e do grupo de assaltantes que ele junta. Não fosse o nosso lado racional a dizer-nos que são ladrões e torceríamos por eles sem dó nem piedade. Assim, ainda hesitamos, mas pouco. A série tem apenas duas (curtas) temporadas, que se passam durante o assalto. E o assalto é simplesmente G-E-N-I-A-L. Uma série a não perder!
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2º Lugar
The Handmaid’s Tale
Baseado no livro A História de Uma Serva de Margareth Atwood, mas que o ultrapassou e muito em qualidade e conteúdo. Nesta distopia visitamos Gilead, uma cidade que vive sob um regime teocrático. Quando o estado do planeta se agrava tanto que torna grande parte da população estéril, dá-se uma revolta nos EUA que leva à queda do governo e da sociedade como a conhecemos hoje. Voltam a adoptar-se muitos costumes antigos, numa tentativa de obter o perdão de Deus. As poucas mulheres férteis são raptadas, separadas dos seus filhos e família e tornam-se escravas para darem à luz os filhos da elite.
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3º Lugar
Penny Dreadfull
Neste série juntam-se alguns dos personagens mais marcantes e aterrorizantes da literatura que conhecemos. Drácula e os seus vampiros, lobisomens, Frankenstein, Dorian Gray e muitos outros cruzam-se numa história marcante na Londres vitoriana, que apesar de misturar personagens que nunca pensaríamos misturar, faz sentido e dá todo um novo ar às velhas histórias de terror. Uma série para os amantes do terror, da literatura e da fantasia.
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Filmes
1º Lugar
The Belko Experiment
Era para ser só mais um dia de trabalho na empresa Belko. Um dia como outro qualquer. Mas não foi. De repente, a empresa viu-se transformada no cenário de uma experiência macabra. Não há para onde fugir. É matar ou morrer. Conseguiria matar os seus colegas para salvar a sua vida? Quantos? Até onde vai o ser humano quando a sua vida está em risco? Um filme de acção excelente para reflectir, que nos deixa colados à cadeira para além do fim.
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2º Lugar
Black Panther
Sabemos que um filme é bom quando tem uma piada literária no meio da história e só 10% da sala de cinema (cheia, note-se) percebe. Neste filme conhecemos T’Challa, Principe do Reino de Wakanda. Quando o pai morre T’Challa torna-se rei e tem de enfrentar desafios que nunca esperou.
Um filme com significados bem mais profundos do que seria de esperar num filme de super heróis. Uma história interessante, que não perde em nada. Muito bom.
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3º Lugar
Ghostland
Como não podia deixar de ser, tinha de haver um filme de terror nesta lista. Em Ghostland conhecemos a história de duas irmãs adolescentes e da sua mãe, quando se mudam para uma casa isolada que herdaram. Podia ser uma história normal de fantasmas, mas não é. De repente, a casa é invadida por dois violentos raptores com um intuito muito pouco comum. Um filme com uma linha muito ténue a separar o presente do passado, a realidade da ilusão. Uma história violenta, assustadora e impressionante.
Olá Anabela!
Eu já nem listas faço e já nem tenho ideia da quantidade de livros que li e de filmes que vi.
Confesso que até há uns anos fazia listas e, em relação a livros andava também pelos 60 e tal, 70 e tal livros. Filmes, passava a centena e séries, como já to disse, não vejo nenhuma há anos.
Mas admito que é sempre um exercício engraçado.
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Eu adoro fazer listas, até porque sou uma pessoa terrivelmente distraida e esquecida e já me aconteceu ir à biblioteca e requisitar livros que já li. Com as listas acontece menos vezes 😉 além disso é sempre engracado olhar para tras e pensar “Eeehhh, porque fui eu ler isto?” :,)
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