O ministério da felicidade suprema – Arundhati Roy

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“Em comparação com Cabul, ou com qualquer outro lugar no Afeganistão ou no Paquistão, ou, na verdade, com qualquer outro país vizinho (Sri Lanka, Bangladesh, Birmânia, Irão, Iraque, Síria…meu Deus!) esta ruazinha secundária enevoada, com a sua monotonia quotidiana, a sua vulgaridade, as suas injustiças infelizes mas toleráveis, os seus burros e as suas crueldades menores, é como um vislumbre do Paraíso. As lojas do mercado vendem comida e flores e roupas e telemóveis, em vez de granadas e metralhadoras. As crianças brincam a tocar às campainhas, não aos bombistas suicidas. Temos os nossos problemas, os nossos momentos terríveis, sim, mas são apenas aberrações.”

“A que casta pertenço? É essa a vossa pergunta? Com uma agenda politica tão grande como a minha, digam-me, a que casta deveria pertencer? De que casta eram Jesus e Gautam Buddh? De que casta era Marx? De que casta era o profeta Maomé? Só os hindus têm estas castas, esta desigualdade incluída nas suas escrituras. Sou tudo excepto um hindu.”

Eu li o primeiro livro de ficção desta autora, O Deus das Pequenas Coisas (de que falei aqui) há já muitos anos. Acho que foi por isso que assim que vi este livro nas prateleiras da fnac decidi, naquele momento, que tinha de o trazer comigo para casa.

E não me arrependi. A escrita desta autora não é fácil de ler, é uma escrita densa e prolongada. Mas para leitores que não se deixam intimidar facilmente, vale muito a pena.

Neste livro conhecemos primeiro Anjum, uma hijra com o sonho de ser mãe, que a vida muito maltrata. Depois, os outros: Zainab, a pequena ratola, Saddam, Tilo e os três homens que a amam… Conhecemos as suas histórias individuais, as suas dores, os seus problemas, a sua coragem. E no meio de todas essas histórias vamos conhecendo também a história da guerra, o defender das causas, os crimes, as mortes e as violações…

Arundhati Roy tem o dom de dar um toque de magia e misticismo às suas personagens, sem as tornar menos reais por isso. A prosa tem um toque de poesia, como tantas vezes digo neste blog quando os livros estão realmente bem escritos. E, mais que tudo, ela consegue dizer as verdades mais incómodas, falar das realidades mais duras. Não diz meias verdades nem as mascara com ilusões. Uma outra coisa que esta autora faz maravilhosamente são as descrições. Dos momentos, dos lugares, da personalidade de cada personagem. Quase podemos sentir que estamos lá apesar de, para nós, todos estes cenários serem algo muito distante.

Este é um livro duro, com uma história dura e difícil de ler. E real, porque a guerra é real. Mesmo assim é um livro bonito, cheio de personagens corajosas e meio exóticas. A mim, parece-me que Anjum vai ser uma daquelas personagens que, como Estha e Rael do Deus das Pequenas Coisas, me vai ficar sempre na memória.

Livro recomendado!

Livro na Wook

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