Ofélia

Ofélia sabia que mais dia menos dia ia ser encontrada morta, sozinha na velha cama de ferro que partilhara tanto tempo atrás com António ou caída perto da bancada de mármore da cozinha ou simplesmente sentada no velho sofá esburacado da sala de estar.

Ela não se importava. Na verdade, embora não gostasse de o admitir nem para si mesma, dava-lhe um certo gozo pensar no que diriam os vizinhos. Pelo menos uma vez iam importar-se o suficiente para falar dela. Talvez, com um pouco de sorte, até demorasse a ser descoberta e conseguisse impregnar o seu cheiro de morte nos sofás da vizinha da esquerda, aquela vadia que fez queixa dela por ter demasiados gatos. Sentia tanta falta dos seus gatos!

Ao contrário do que se possa pensar, Ofélia não gostava de remoer o passado. Não abria os álbuns de fotos havia anos. Para ela não importavam já as férias que passava na caravana com o marido, nem os natais a dois com um copo de vinho e um filme antigo, nem os abortos que sofrera, uns a seguir aos outros, durante anos. Ela sabia que tudo isso passara e não ia voltar. Sabia que não se pode viver do passado, por mais seco e vazio que seja o presente.

Claro que sentia falta de António. Todos os dias, o dia todo. Mas não era com aquela tristeza saudosista de quem amou e perdeu. Ofélia acreditava piamente que, um dia, iam voltar a estar juntos. Era isso que lhe dava força para se levantar todas as manhãs e enfrentar outro dia de solidão. Não fora um adeus, só um até já.

Era António quem costumava dizer-lhe isso. Ele confiava em Deus mais do que nele próprio. Acreditava que tudo era sua vontade e tinha uma razão para ser assim. Ela, pelo contrário, nunca gostara de acreditar no que não podia ver. Mas ainda menos podia acreditar que nunca mais veria o seu marido.

Quando Ofélia se levantou naquele dia, depois de uma noite de insónias como acontecia tantas vezes, resolveu abrir a janela para deixar entrar o ar. O sol lá fora anuncia os primeiros dias de Primavera e Ofélia estava cansada do Inverno. Nunca chegaria a fechá-la.

A janela aberta fez com que só fosse encontrada anos depois e a vizinha da esquerda, que há muito se mudara, nunca chegou a saber. Ao lado de Ofélia ficaram os restos de um almoço meio comido e caído aos seus pés um velho álbum de fotos, aberto pela primeira vez em anos.

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