Jahi enjoou

Jahi enjoou. Nascera numa terra árida, cercada de deserto por todos os lados, em que o calor tornava quase impossível até as mais simples tarefas diárias. Nunca fora também um grande homem de negócios, desses que vestem fato e gravata e viajam em busca de novos investimentos e novas histórias. Não, Jahi não era assim. Era dono de uma pequena loja local que herdara do seu pai, que por sua vez a herdara do seu avô. Era um homem simples, desses que nunca na vida saem da pequena terra em que nasceram, que conhecem os nomes de todos os que nela habitam e cada detalhe dos seus desabafos, mas nunca chegam sequer a ver o mar. No entanto o filho, um jovem exuberante como o são quase todos os jovens, resolvera ir estudar para o outro lado do mar. Tinha sonhos de grandeza, de riqueza e de fama. Nunca os alcançou, mas acabou por ficar por lá. Agora, ia casar.

Não restou por isso outra solução a Jahi senão fazer as malas e preparar­-se para a viagem. Saiu de casa, atravessou ansioso o deserto que lhe rodeava a vida e chegou ao porto onde Orpheu, o navio de passageiros que o filho lhe tinha escolhido, estava ancorado. Ficou impressionado com o tamanho do navio e com a sua capacidade de flutuar, mas mais impressionado ainda com aquele azul desconhecido que parecia não ter fim.

Os marinheiros eram jovens e simpáticos e tudo fizeram para que aquele velho rezingão ficasse confortável. Mas Jahi nunca tinha navegado e, por isso, enjoou. Passou as duas primeiras noites trancado na cabine com uma ou outra garrafa que lhe iam trazendo para acalmar o estômago. Na terceira, quando conseguiu finalmente habituar-­se aos balanços incansáveis daquele monstro marinho resolveu sair da cabine e apanhar um pouco de ar. Mas quem o apanhou realmente foi uma tempestade de mar alto que por pouco não o mandava borda fora. O susto foi tamanho que Jahi não voltou a sair da cabine antes de ter a certeza que o navio atracara em terra firme, por muito que os marinheiros tentassem convencê­-lo de que estava seguro. Estava envolto num mutismo negro de quem teme a morte e nem o sol radioso do meio dia o fazia mudar de ideias.

Hoje, quando alguém o lembra da sua viagem, sorri contrariado e fecha­-se no silêncio cansado de quem não quer saber nem de marés nem de marinheiros.

 

Autoria de Anabela Risso

Conto originalmente aqui

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