Lia, a Leitora

A minha irmã chamava­-se Marilia, mas toda a gente lhe chamava Lia, o que não deixava de ser irónico. Lia, a minha irmã, lia o tempo todo. Mas não lia uma coisa qualquer, não. Ela gostava sobretudo dos grandes romances, das grandes paixões, daquelas histórias que enternecem e doem no fundo da alma. Era uma leitora apaixonada por histórias de amor e, durante muito tempo, essa foi a sua única paixão.

Até que um dia ela se apaixonou mesmo, como se apaixonavam as personagens das suas histórias. Lia tornou­-se então ela própria como as personagens que lia, e passou a ler ainda mais, mais envolvida ainda naqueles romances dourados a que os autores dão sempre um final feliz. Ela não sabia que, na realidade, nem sempre existem finais felizes.

No início, o seu romance era, como dizem os entendidos, um verdadeiro mar de rosas. Aliás, de rosas, chocolates, cinemas e surpresinhas românticas de fazer chorar o cupido! E Lia sorria, lia e amava e todos nós éramos felizes por ver como os seus olhos brilhavam. Depois, Lia casou. De véu e grinalda, com direito a dança e chuva de arroz, como manda a cerimónia. E todos nós continuávamos felizes, pois Lia era feliz.

Até que um dia, a felicidade de Lia extravasou pelas mãos do seu marido. Do seu amado marido! Ele, zangado, dizia que ela lia demais, que não fazia nada se não ler, que não passava de uma inutilidade qualquer. Dizia que ela era mulher, e mulheres não precisavam de ler. Ela, chorosa e de marcas negras, dizia que vivia pelos livros. Que lhe davam a conhecer vidas que nunca vira. Que eram a sua razão de viver. Ele gritava ainda mais, que a única razão de viver que ela precisava era ele. Que ler era perda de tempo e mais, de dinheiro!

Com o tempo, Lia passou a ler às escondidas do marido, como se ler fosse um crime público. Ela dizia que não fazia mal, que não se importava, que ele não tinha culpa, até tinha alguma razão. E escondia os livros nos sitios em que sabia que ele não ia mexer: o forno (uma vez esqueceu­-se de o tirar!), o armário dos detergentes, o cesto da roupa suja, os sacos dos vegetais…

Claro está que ele desconfiava. Deixar de ler de uma hora para a outra, dizia, não era nada coisa dela. Até pensava que o enganava! Como se ele não soubesse! E zangava­-se, mesmo sem ver os livros, e zangado descontava nela.

Tiveram um filho. Deus nos livre que seja leitor! reclamava ele, ainda antes do miúdo nascer! Que não aguentava dois desses, havia de acabar com os livros naquela casa! Que quem mandava era ele, fazia notar.

Lia lia para ela e para o filho. Leu até ao último dia do seu casamento, que haveria de ser também o último da sua vida. Desistiu do casamento, mas não dos livros. O filho, como a mãe, lia e lia e lia…

“Deves ser paneleiro” foi a última coisa que o pai lhe disse antes de ser preso.

 

   Autoria de Anabela Risso
Conto originalmente aqui

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