O real poder de um livro

A leitura estimula a criatividade e treina a empatia. É um porto de abrigo, uma distração e uma forma de viajar para fora dos nossos problemas diários. Um bom livro tem o poder de aumentar o nosso vocabulário e conhecimento no geral e desenvolver a nossa capacidade crítica e de encadeamento de ideias, bem como a nossa capacidade de escrita, de concentração e de memorização. Um estudo realizado pela Universidade de Yale em 2016 com 5.635 participantes concluiu que quem tem hábitos de leitura tem até mais 20% de hipóteses de viver mais tempo. O livro é, por conseguinte, um dos objetos mais notáveis da história humana. Irene Vallejo diz em O Infinito num Junco:

A invenção dos livros foi talvez o maior triunfo da nossa tenaz luta contra a destruição. Confiámos aos juncos, à pele, aos farrapos, às árvores e à luz a sabedoria que não estávamos dispostos a perder. Com a sua ajuda, a humanidade viveu uma fabulosa aceleração da História, do desenvolvimento e do progresso. A gramática partilhada que os nossos mitos e os nossos conhecimentos nos proporcionaram multiplica as nossas capacidades de cooperação, unindo leitores de diferentes partes do mundo e de gerações sucessivas ao longo dos séculos. (VALLEJO, 2022:398)

Mas serão apenas estas as únicas capacidades de um livro? De que outras formas podem estes papéis pintados com tinta afetar a nossa vida?

Gilgamesh

O primeiro livro conhecido da história da humanidade é A Epopeia de Gilgamesh, uma obra em placas de argila e escrita cuneiforme. Datado aproximadamente de 2000 a.C. e descoberto nas ruínas da Biblioteca de Nínive, a primeira biblioteca do mundo, este livro conta-nos os feitos de Gilgamesh, rei de Urzuk. Mas não é a partir do épico de Gilgamesh que iremos iniciar a nossa viagem hoje.

A nossa viagem começa muitos séculos mais tarde, com a primeira obra conhecida da literatura ocidental. Datada do séc. VIII a.C. e de autoria atribuída a Homero, a Ilíada é constituída por XXIV cantos divididos em 5 partes e narra alguns dos acontecimentos da Guerra de Tróia, conflito resultante do rapto de Helena.

Não se tem certeza se a guerra de Tróia existiu realmente, tal como não se pode afirmar sobre a existência de Homero. Mas contam os historiadores que, quando muito tempo depois, Alexandre O Grande partiu em busca de conquistas, era um exemplar de Ilíada de Homero que ele carregava consigo. Alexandre sonhava ele próprio entrar nos livros, marcar a história e assim como Aquiles, tornar-se uma lenda.

O rapto de Helena, por Gavin Hamilton

À medida que este jovem rei conquistava sucessivamente territórios com que o seu povo nunca sonhara e vencia batalha após batalha, era à Ilíada que recorria em busca de inspiração e conselhos. A Ilíada é, consequentemente, o primeiro livro poderoso de que vos falamos hoje, um livro que motivou sonhos de guerra e de conquistas, que levou Alexandre a vencer o maior exército da sua época e cujos feitos viriam a marcar a história da humanidade.

Anos mais tarde Ptolomeu, um dos sucessores de Alexandre, tornou-se governante do Egipto. Foi na Alexandria que Alexandre deixara neste país que Ptolomeu decidiu dar origem à maior biblioteca da antiguidade, a Biblioteca de Alexandria. O sonho, que tinha as dimensões dantescas dos sonhos de Alexandre, era o de criar uma biblioteca que reunisse exemplares de todos os livros do mundo. Foram enviados emissários para percorrerem os caminhos em busca de novas obras e estes preciosos objetos foram negociados, roubados, falsificados e adquiridos das mais variadas formas. Deu-se assim início a uma verdadeira peregrinação.

A história da humanidade está repleta de momentos marcantes e os livros participaram de alguma forma em quase todos eles. Muitos séculos depois das guerras alexandrinas chegou a época da inquisição.

Malleus Maleficarum

Malleus Maleficarum, datado do séc. XV, é um dos mais cruéis manuais inquisitoriais de que há memória. Apesar de ser um manual para combater heresias e bruxarias no geral o livro dá especial enfoque à captura e julgamento de mulheres consideradas bruxas. Malleus Maleficarum explica, inclusive, porque é que as mulheres apresentam uma maior tendência para seguirem tal caminho: são mais perversas, mais supersticiosas e crédulas; mais impressionáveis e sujeitas aos espíritos desencarnados; têm uma língua traiçoeira, são mais fracas na mente e no corpo e o seu intelecto é como o das crianças. Mas a principal razão, segundo este manual, é a de que as mulheres são mais carnais, e tendo sido Eva criada a partir de uma costela do peito de Adão, portanto uma costela curva, as mulheres são mais tortas e contrárias à retidão dos homens.

Pesquisadores estimam que no período da inquisição tenham sido executadas cerca de 100 000 mulheres. Nunca poderemos saber quantos dos seus inquisidores tiveram acesso ao Malleus Maleficarum, mas se este livro tiver originado uma morte sequer (o que com toda a certeza fez) então, é suficientemente perigoso para figurar na nossa lista.

O livro seguinte é diferente, porque o seu poder não está no que ele nos leva a fazer mas no que ele próprio faz. Calcula-se que entre 1878 e 1883 quase 65% do papel de parede comercializado nos EUA continha alguma quantidade de arsénico. R. C. Kedzie foi um químico que, à época, tentou alertar para o perigo do uso do arsénico, produto capaz de causar graves problemas de saúde como diarreia, dores abdominais, tosse, convulsões e até mesmo a morte. A determinada altura, sentindo que os seus alarmes caiam em saco roto, Kedzie decidiu publicar um livro intitulado Shadows from the Walls of Death, como mais uma tentativa de chamar a atenção para o fenómeno. Ninguém esperava era que o livro, que continha diversos papéis de parede com arsénico, apresentasse ele próprio a capacidade de matar. Após a morte de uma leitora a maioria das cópias foram destruídas. Ficaram apenas alguns exemplares guardados para memória futura e fechados em segurança em bibliotecas.

Shadows from the Walls of Death

Mein Kampf de Adolf Hitler é o título que se segue. Adolf Hitler nasceu a 20 de abril de 1889 em Braunau am Inn e é provavelmente um dos ditadores mais cruéis de que há memória. Os seus ideais nazistas, onde prevalecem o antissemitismo, a xenofobia, o nacionalismo, o racismo e a ideia da supremacia da raça ariana são ainda hoje um dos piores pesadelos que a humanidade atravessou. Estima-se que a Segunda Guerra Mundial, causada por estes ideais, tenha originado a morte de mais de 70 milhões de pessoas. Mein Kampf foi e continua ainda a ser ainda hoje, o livro em que muitos defensores do nazismo se baseiam para argumentar e estruturar os seus ideais.

Mein Kampf de Adolf Hitler

Discutiremos agora um género diferente de livros: os livros de ficção. De que forma pode um livro de ficção, que foi escrito apenas com o intuito de entreter, tornar-se poderoso?

O primeiro livro ficcional de que vos falamos é A Paixão do Jovem Werther de Johann Wolfgang Goethe, publicado originalmente em 1774. Neste romance epistolar o jovem Werther apaixona-se perdidamente por Lotte, mas a jovem rapariga encontra-se noiva de outro homem. Ao ser confrontado com o seu amor impossível, Werther vê apenas uma solução para o seu sofrimento: o suicídio. A vaga de suicídios que se seguiu à publicação do livro afetou principalmente os jovens e foi tal que deu origem ao surgimento do termo Efeito Werther. O Efeito Werther acontece quando, após um suicídio que se torna conhecido, surge uma vaga de suicídios semelhantes, portanto copiados.

Rage de Stephen King

Bastante mais recente é a obra Rage de Stephen King, conhecido como sendo um dos grandes mestres do terror. Nesta obra, publicada sob o pseudônimo de Richard Bachman, Charlie Decker é um aluno com problemas de comportamento. Após ser expulso o rapaz decide pegar numa arma e ir para a aula de álgebra, onde mata a professora e faz dos colegas reféns. O livro acabou associado a diversos crimes semelhantes que aconteceram nos EUA após a sua publicação e foi retirado de circulação em 1997, a pedido do próprio autor.

No entanto, as personagens poderosas da literatura são muitas e nem todas se revelam tão perigosas como Werther ou Charlie Decker. Um dos exemplos mais tradicionais é o de Don Juan Tenório.

A obra que atualmente é conhecida como a que deu origem a Don Juan intitula-se  El Burlador de Sevilla ou El convidado de piedra e é da autoria de Tirso de Molina. Nesta obra do séc. XVII Don Juan, entre as suas inúmeras conquistas, acaba por seduzir Ana, filha de Don Gonzalo de Ulloa. Para vingar a honra da filha Don Gonzalo desafia Don Juan para um duelo mas acaba por ser morto pelo sedutor. Sobre o seu túmulo é construída uma estátua de pedra, em que virá depois a encarnar o espírito de Don Gonzalo, que regressa dos mortos para se vingar de Don Juan. Foram muitos os livros, filmes, séries e interpretações artísticas que nasceram desta história ao longo dos séculos, ao ponto deste sedutor se tornar adjetivo. Quem nunca conheceu um Don Juan?

Os livros formatam ideias, moldam mentes, traçam destinos e relembram-nos o passado. Por vezes não é um livro em específico, mas um conjunto de livros lido por um conjunto de pessoas que faz a raça humana evoluir.

Em 1660 o rei Carlos II de Inglaterra decretou que os criados e os escravos fossem ensinados a ler para poderem assim ler por si mesmos a palavra de Deus. Mas esta medida, que tinha como vocação a salvação das almas, não agradou a todos: os donos dos escravos receavam as ideias revolucionárias que eles pudessem encontrar nos livros. E pelo menos nisso, tinham razão. Os escravos que conseguiam aprender a ler, muitas vezes contra a vontade dos donos, ganhavam assim acesso a um dos objetos mais poderosos do poder branco: os livros. E com eles, às suas ideias.

Mais tarde, no séc. XIX,  as fábricas de charutos tornaram-se uma das principais indústrias em Cuba. Saturnino Martínez criou o jornal La Aurora mas depressa percebeu que, uma vez que apenas 15% dos trabalhadores conseguia ler, o seu jornal dificilmente iria ter o alcance que ele tencionava. Daí surgiu a ideia de um leitor público, um trabalhador que lia para os colegas durante o horário de trabalho. As leituras tornaram-se um sucesso entre os trabalhadores e aos poucos espalharam-se pelas fábricas. Ganharam então fama de subversivas pelas ideias que instigavam nos trabalhadores e foram proibidas em 1866.

Os governos ditatoriais também são conhecidos pela sua censura e por vezes pelas suas famosas queimas de livros. Estima-se que na Alemanha Nazi tenham sido queimados cerca de 20 000 livros, muitos dos quais pertencentes a bibliotecas públicas; e que o Estado Novo tenha censurado aproximadamente 900 obras. A censura e destruição de livros é no fundo mais do que apenas um facto histórico: trata-se da prova de que os opressores reconhecem o poder que os livros e a leitura podem ter na mente dos oprimidos.

A leitura estimula a criatividade e treina a empatia. Mas no fundo, o poder real de um livro vai muito além disso. Eles são companhia para os solitários, inspiração para os conquistadores, ensinamento para quem quer aprender. Relembram-nos o passado que não podemos esquecer e alimentam os nossos sonhos de futuro.

Alguns, perigosos e loucos, tiveram o condão de os transformar em armas capazes de dizimar populações inteiras; outros, oprimidos e esquecidos, usaram os livros como escada para a liberdade. Os livros são objetos poderosos, mas como qualquer outro objeto poderoso são as nossas mentes e as nossas ações que lhes dão o poder de construir e de destruir.

Referências Bibliográficas

Manguel, Alberto (2020). Uma História da Leitura. Lisboa: Tinta da China

Ovenden, Richard (2022). Queimar livros: Uma história da destruição do saber. Lisboa: Presença

Vallejo, Irene (2021) O Infinito num Junco. Lisboa: Bertrand

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