Chama-me Pelo Teu Nome – André Aciman

“Recordo esse verão do passado e não acredito que, apesar de todos os meus esforços para viver com o “fogo” e o “desmaio”, a vida ainda providenciava momentos maravilhosos. Itália. Verão. O som das cigarras no inicio da tarde. O meu quarto. O quarto dele. A varanda para o mundo lá fora. O vento suave arrastando a respiração do jardim pelas escadas acima, até ao meu quarto. O verão em que aprendi a adorar a pesca. Porque ele adorava a pesca. A adorar correr. Porque ele adorava correr. A adorar polvo, Heráclito, Tristão.”

“Oliver ficou estupefacto ao saber que havia árvores que davam alperces no nosso pomar. Ao fim da tarde, quando não havia nada para fazer em casa, Mafalda pedia-lhe que subisse a um escadote, com um cesto, e colhesse os frutos que pareciam corados de vergonha, dizia ela. Oliver brincava, em italiano, apanhando um alperce e perguntando: Este está corado de vergonha? Não, dizia ela, esse ainda é muito jovem, a juventude não tem vergonha, a vergonha adquire-se com a idade.”

“Queria ser como o Oliver? Queria ser o Oliver? Ou só queria tê-lo? Ou “ser” e “ter” são os verbos errados na meada retorcida do desejo em que ter o corpo de alguém e ter o corpo da pessoa que desejamos que nos toque são uma e a mesma coisa, tão-só margens opostas do rio que passa por entre nós e eles, de volta a nós, e outra vez para eles, neste circuito perpétuo onde as câmaras do coração, como as armadilhas do desejo, e os buracos negros do tempo, e o fundo falso da gaveta a que chamamos identidade, tudo partilha uma lógica cativante, segundo a qual a distância entre a vida real e a vida não vivida, entre quem somos e quem queremos ser é uma escada retorcida…”

 

Chama-me pelo teu nome é uma história de amor. É a história bela, encantadora e sábia de um amor entre um rapaz de 17 anos, Elio, e o convidado dos pais, Oliver, que passa o Verão em casa da família. O livro que deu origem ao filme que venceu o óscar de melhor roteiro adaptado em 2018!

Independentemente de ser um livro sobre uma relação entre dois rapazes esta é, acima de tudo, uma história intensa de desejo, paixão e a forma como vivemos todos esses sentimentos. O facto de serem dois rapazes a viver esta história é apenas um bónus. Um bónus enorme, diga-se de passagem, capaz de destruir preconceitos e estereótipos, mas ainda assim um bónus.

A escrita é soberba (apenas com uns erros de português aqui e ali, suponho que devido à tradução), maravilhosa. A história é encantadora e intensa, não esperava quando comecei este livro que a história fosse tão intensa. De facto, por vezes temos mesmo a sensação de estar a ler um livro escrito por alguém de 17 anos, como o é a nossa personagem principal, tal não é a intensidade que nos faz lembrar a adolescência.

Não é um livro para pessoas púdicas ou que se choquem facilmente. É um livro sem tabus, que não usa falinhas mansas e não diz nada em meias palavras. É um livro frontal, erótico e sobre uma relação homossexual e tudo o que ela engloba. Há que ter isso em atenção quando decidirem ler este livro.

Mas vale a pena. Com muitas referências filosóficas, é também uma história sobre saber saborear a vida no que ela tem de melhor. O desejo. A paixão. A intensidade. A fruta madura, o verão. Os livros, a música, a poesia, a pintura. A descoberta de nós mesmos, sem medos ou tabus. As cigarras lá fora. O mar. A areia da praia. O toque de quem amamos.

Dá-nos vontade de ir para Itália, passear em B. e colher os alperces do pomar.

Livro muito, muito recomendado.

Livro na Wook

 

 

 

 

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