Só – António Nobre

Ainda não fiz nenhum post aqui no blog especifico para um livro de poesia, e achei que este merecia sem dúvida ser o primeiro.

Este livro foi-me apresentado por uma professora. Dizia ela que é conhecido como “o livro mais triste da literatura portuguesa”. Ora eu que na altura achava (e ainda acho) isso um titulo bastante pesado para um livro, devo admitir que não acreditei muito. E lá o fui ler.

Agora, tanto tempo depois de o ter lido, tenho dúvidas. Continuo a achar que ser “o mais triste” é um titulo bastante pesado para um livro, mas este é sem dúvida um livro carregado de tristeza.

António Pereira Nobre nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi um poeta ultra-romântico, simbolista, decadentista e saudosista. Vinha de uma família abastada e licenciou-se em ciências Politicas em 1895. o livro Só foi escrito em Paris, em 1892.
O poeta morreu a 18 de Março de 1900, na Foz do Douro.

Se este é ou não o livro de poesia mais triste de todos, eu não sei. Mas para mim é, sem dúvida, um marco deste género literário. Não acho, nunca achei, que a poesia tem de ser tristeza para ser bonita. Para mim a poesia é, sobretudo, revolução. Mas a voz de António Nobre neste livro tem um peso estranho, como se a poesia fosse a própria dor. Como se cada palavra lhe doesse.

 

Canção da Felicidade

Felicidade! Felicidade!
Ai quem me dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.
Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar…
Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economia pró que vier.
Ir, pelas tardes, até à fonte
Ver as pequenas a encher e a rir.
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.
Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados,
Que, em se morrendo, vai-se pró Céu!
Não ter talento: suficiente
Para na vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.
Mulher e filhos! A mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!
E, em nove meses. vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.
Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem me dera na minha mão!
 

António Nobre in ‘Só’

 

Livro recomendado!

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