Don Juan Tenorio [Personagens Arquétipos]

Don Juan and Haidee,1833
Pintura de Alexandre Marie Colin

Hoje começamos um novo tópico aqui no blog e vamos falar daquelas personagens que já estão de tal forma entranhadas na literatura e no nosso dia a dia que já são mais do que simples personagens: são personagens arquétipos, que viajam de uma narrativa para a outra, para filmes e séries e muitas vezes se tornam adjectivos até para a vida real.

O conceito de arquétipo foi desenvolvido pelo psiquiatra suiço Carl Jung. É um conceito em que determinada personagem representa um conjunto de padrões comportamentais que são compreendidos de forma inconsciente por todos.

Hoje vamos falar de Don Juan. Afinal, que mulher (ou homem) nunca conheceu nenhum Don Juan?

Esta é uma personagem ambígua. Habitualmente Don Juan é visto como um mulherengo sem solução, um conquistador. Em alguns textos, principalmente os mais antigos escritos quando a religião tinha um enorme peso na sociedade ele chega a ser quase demoniaco, um homem perigoso que não se limita a conquistar mulheres: muitas vezes, chega mesmo a violá-las. E acaba frequentemente condenado ao inferno.

Em histórias mais recentes, a personagem ganha certos trejeitos diferentes. Ele é um conquistador mas também um libertador, que afronta o poder patriarcal e religioso imposto e dá às mulheres uma nova liberdade sexual.

Don Juan e a estátua do Comandante, pintura a óleo de Alexandre-Évariste Fragonard.

A primeira história conhecida onde entra o nosso Don Juan é a narrativa espanhola El Burlador de Sevilla ou El convidado de piedra de Tirso de Molina de 1630 (existem algumas dúvidas sobre a autoria). Nesta história, após diversas conquistas de Don Juan, o sedutor acaba por seduzir Ana, filha de Don Gonzalo de Ulloa. Para vingar a honra perdida da filha Don Gonzalo de Ulloa trava um duelo com Don Juan, no qual acaba por falecer. Don Juan continua a sua vida e as suas conquistas e a dado momento encontra-se à beira da sepultura de Don Gonzalo de Ulloa onde goza com o defunto convidando-o para jantar. O que nem ele nem ninguém esperava era que o defunto realmente fosse comparecer ao jantar, em forma de estátua (a estátua do próprio, que se encontrava sobre a sepultura). Um encontro arrepiante. A estátua acaba por convidar também Don Juan para jantar e, mais tarde, consegue arrastá-lo para o inferno pelos seus pecados. Era um texto de intenções teológicas. Existe quem defenda que a história teve como inspiração um conto tradicional espanhol.

Francisco Andrade como Don Giovanni
pintura a óleo de Max Slevogt
1912

De seguida temos Dom Juan ou Le Festin de Pierre de Moliére, uma tragicomédia levada ao palco pela primeira vez em 1665. Criada com base na obra de Tirso de Molina, este Dom Juan é o mesmo invertebrado conquistador, que não respeita a honra das mulheres e não teme nem Deus nem os homens. No entanto nem tudo nele é negativo: Dom Juan é também uma personagem corajosa e inteligente. Aqui Dom Juan desonra mulheres, zomba de homens e ilude credores. No final, o espectro de uma mulher surge à sua frente, avisando-o que é a sua última oportunidade de arrependimento. Trata-se da própria Morte! Dom Juan trespassa-a com a sua espada e ela desaparece, mas o convidado de pedra pega-lhe na mão e o sedutor é consumido pelo fogo. A história causou polémica quando subiu ao palco e os defensores da religião e bons costumes não gostaram da ousadia, tendo mesmo Moliére sido obrigado a retirar algumas cenas.

Também Wolfgang Amadeus Mozart e Lorenzo Da Ponte pegaram na história deste conquistador libertino e a levaram aos palcos, em 1787, sob a forma de uma ópera em dois actos a que chamaram Don Giovanni. O seu terrível fim, é o mesmo: a terra abre-se e Don Juan cai no inferno.

G. de Maeztu, Alegoria de Don Juan Tenorio

Lord Byron, por sua vez, deixou-nos uma outra visão do mito. No seu poema épico satírico Don Juan de 1819 Juan não é o sedutor, mas sim o seduzido. Lord Byron usa este texto para satirizar a sociedade da época e o poema foi mesmo considerado imoral.

Em 1836 Alexandre Dumas lançou Don Juan de Maraña, uma obra em teatro em que Juan é um jovem rico, imoral e um eterno conquistador.

Para Hoffman, na sua novela de 1813, existem dois Don Juan: o que assiste à ópera e é o narrador da história e o da própria ópera. Um narrador que nos traz um bom Don Juan e um actor que representa um mau Don Juan, machista e mulherengo. Hoffman fez um trabalho interessante ao representar as diversas versões desta personagem.

José Zorrilla, um autor espanhol do séc. XIX traz-nos um Don Juan diferente. A sua obra concentra-se em apenas um dos seus casos amorosos (com Dona Inês) e o seu Juan acaba por se arrepender e encontrar a salvação, graças ao amor. Uma obra sobre a salvação humana.

Também José Saramago se debruçou sobre esta história. Na sua obra Don Giovanni ou O dissoluto absolvido Juan não teme as consequências das suas acções pois o ser humano é livre de pecar. O Convidado de Pedra tenta levar Don Juan para o inferno mas não consegue e o sedutor acaba absolvido.

O cinema conheceu diversas versões desta personagem. Seguem-se alguns exemplos.

Don Juan – 1926

As aventuras de Don Juan – 1948

Don Juan – 1973

Don Juan DeMarco – 1994

Don Juan – 1998

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