Outrora e outros tempos – Olga Tokarczuk

Livro Físico

Ouviam juntos os estrondos dos canhões, geralmente vindos dos lados de Kotuszów, mas, às vezes, quando tudo estremecia, sabiam que o projéctil atingira Outrora. À noite ouviam ainda ruídos estranhos de mastigação, grunhidos, depois passos rápidos de homem ou animal. Michal tinha medo, mas não queria mostrá-lo. Quando o seu coração batia com mais força, mudava de posição na cama.”

Olga Tocarczuk

Olga Tukarczuk nasceu a 29 de Janeiro de 1962 em Sulechów, na Polónia. Formada em psicologia, venceu em 2018 o prémio Man Booker Internacional e o Prémio Nobel da Literatura.

Outrora é uma aldeia que fica mesmo no centro do universo. Pelo menos para quem dela faz parte. É guardada por quatro Arcanjos, um a norte, outro a sul, outro a este e outro a oeste. Há quem acredite que não há nada para lá das fronteiras desta aldeia.. os que saem apenas sonham, os que entram são inventados pela própria fronteira. A única constante é o tempo e a sua passagem, o correr das estações e o avançar da idade destes aldeões.

Eu li o Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, da mesma autora, há algum tempo e ainda hoje me lembro daquela história. Lembro-me que naquela altura a maneira como a autora escreve e a história que construiu me impactou bastante. Não esperava que esta nova leitura pudesse superar a anterior, mas a verdade é que superou.

Ler este livro trouxe-me a sensação de que estava a ler algo totalmente novo – e isso é dificil, eu leio imenso! Estranhamente esta é também uma história bastante simples – uma aldeia, duas guerras e a passagem do tempo. Já li algo assim, muitas vezes. Mas este livro é diferente.

Primeiro porque a autora tem um dom único para misturar o real e o irreal. Os arcanjos existem mesmo naquele mundo? Podemos dizer que sim, podemos dizer que não. Talvez seja apenas um reflexo do nosso próprio mundo com umas metáforas meio mágicas à mistura. Ou talvez seja realmente uma aldeia diferente, de outro universo onde não existe nada para lá das fronteiras desta terra, onde por acaso as fronteiras recriam alguns acontecimentos semelhantes aos que aconteceram cá.

Mas o verdadeiro dom desta autora está nas personagens. Todas elas são simultâneamente simples e complexas como cada um de nós. Nós podiamos ser as personagens de Olga – e ao mesmo tempo isso seria impossível. São personagens humanas, com virtudes e defeitos, que nascem, crescem, envelhecem e morrem. Personagens que se bamboleiam na linha entre a realidade e a ficção, a loucura e a sanidade. Não precisamos de as conhecer a fundo para as conhecer a fundo. E têm, entre elas, relações complexas. Coisas que se dizem sem ser ditas.

Depois, é também uma história que reflete o que de pior há na humanidade. A guerra, a morte, a fome, a violação, o abandono… todos eles fazem parte deste livro mas estão tão enredados nas próprias personagens que quase não são vistos como o tema principal. O tema é o tempo. Tudo segue, a vida continua mesmo quando não se quer.

Incrível. Excepcional. Uma autora que mereceu, sem sombra de dúvida, o Prémio Nobel da Literatura. 5*

Faltou apenas, na edição, um mapa de Outrora e das suas fronteiras. Senti falta disso no início da história, quando a descrição é feita. Teria sido a cereja no topo do bolo.

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