Nos Mares do Fim do Mundo – Bernardo Santareno

Wook.pt - Nos Mares do Fim do Mundo

Livro Físico

“Ainda tanto tempo no mar! Cinco, seis meses… Aguentarei? E tu, meu amor? Esperarás? Ou vais esquecer-me?… Hoje, mar, sinto-me duro, fechado, impenetrável, como se fosses de ferro. Prisão. Estou em ti, mar, como numa prisão.”

“Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica… Estarei eu preparado para tal? Terei ue me habituar a decidir, rápida e eficazmente, nos casos de urgência: serei capaz? Sou tão doentiamente indeciso! Sinto a vontade anestesiada pela penumbra tépida dos cinemas, envenenada pelo aromas das rosas nocturnas de sombra, desgrenhada pelo desespero agudo de tantas horas amarelas e inúteis…   Tenho que me endurecer: habituar-me a morder os «talvez» e os «depois se verá»; mudar saliências redondas em ângulos acerados; fazer de curvas insinuadas e subtis, rectas simples e firmes, tensas de energia!..”

“É noite. Está mar. Mais uma vez, caiu a saboneteira no lavatório de alumínio: Os meus nervos, tensos, ferem-se nos vidros quebrados deste ruído. Tudo ondula no beliche: cortinas, sobrado, tecto… Ai, esta vegetativa, esta angustiosa sensação de náusea!”

 

*Livro adquirido através do projecto Livraria às Cegas, que podem conhecer aqui.

Centenário Bernardo SantarenoAntónio Martinho do Rosário (que assumiu o pseudónimo literário de Bernardo Santareno) nasceu a 19 de Novembro de 1920, em Santarém, no Ribatejo e faleceu em Oeiras a 29 de Agosto de 1980. Foi escritor e dramaturgo. Esta obra, Nos Mares do Fim do Mundo, são os desabafos dele, a maior parte escritos durante tempo em que navegou no “David Melgueiro” como médico dos pescadores.

Em jeito de diário e desabafo, este é um livro muito sincero sobre os seus medos e dúvidas. Conta-nos os acontecimentos a bordo do “David Melgueiro”, sempre sob o olhar daquele médico pouco habituado a navegações. É um livro muito sincero e apaixonante, daqueles onde cada palavra tem poesia sem, no entanto, deixar de mostrar a dureza daqueles dias sem terra à vista. É difícil não adorar um parágrafo que seja, de tão mágicos que são. O temor do mar, senhor do seu domínio, e ao mesmo tempo a admiração que tinha por ele e por aqueles bravos homens que o enfrentam é um ponto assente ao longo de toda a obra.

Este é um daqueles livros comoventes, que nos lembra realmente o que é ser português, que nos recorda as angústias dos homens do nosso país à beira mar plantado. Pode ser duro em algumas partes, mesmo que disfarçado sob as palavras poéticas de Bernardo. Atrevo-me a dizer que este livro merecia mais reconhecimento do que aquele que tem.

É sem dúvida um livro que entrou para a minha lista de preferidos. Quem me conhece sabe que adoro Miguel Torga e a escrita de Bernardo Santareno fez-me lembrar dele muitas vezes. É uma escrita incrustada de poesia. Como Torga fala da terra e dos seus, Santareno fala do mar e dos que o enfrentam.

Destaque ainda para esta edição da E-Primatur, que é linda e muito completa.

Livro muito recomendado! 5*

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