A Vida Invisível de Eurídice Gusmão – Martha Batalha

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“O resto era o resto, e o resto era domínio de Eurídice. Ele estava ali para botar dinheiro em casa e para sujar os pratos e desfazer a cama, e não saber como as roupas tinham sido lavadas e como a comida tinha sido feita.”

“Nas semanas seguintes a coisa acalmou, e Antenor achou que não precisava devolver a mulher. Ela sabia desaparecer com os pedaços de cebola, lavava e passava muito bem, falava pouco e tinha um traseiro bonito. Além do mais o incidente da noite de núpcias serviu para deixá-lo mais alto, fazendo com que precisasse baixar a cabeça aos se dirigir à esposa. Lá de baixo Eurídice aceitava. Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muio quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras «Do lar».”

“Naquele momento Eurídice aprendeu que alguns olhares são diferentes de outros, e que existem olhares capazes e modificar a gente não só por dentro como também por fora, porque agora não havia meios de ela encontrar uma posição confortável na cadeira.”

Martha Batalha – Movies, Bio and Lists on MUBI
Martha Batalha nasceu em 1973 em Pernambuco, no Brasil. É licenciada em jornalismo com especialização em literatura e trabalhou nos principais jornais do Rio de Janeiro.

Em A Vida Invisível de Eurídice Gusmão conhecemos a história de vida de Eurídice e da sua família. Quando Guida Gusmão, a irmã de Eurídice, foge de casa ainda adolescente, o desgosto dos pais de ambas é tamanho que leva Eurídice a jurar para si própria que nunca os vai desiludir. Isso obriga-a a desistir da flauta, que adorava, a comportar-se sempre como uma mulher de bem, a fazer o casamento certo, a não criar escândalos e a obedecer ao marido.

Esta é uma história que retrata a vida das mulheres da classe média nos anos 40. Vidas apagadas, cujo maior objectivo era cuidar da casa, do marido e dos filhos perfeitamente. E apenas isso.

Eurídice é a incorporação desse modelo de mulher. Mas ao mesmo tempo ela tem uma outra Eurídice dentro dela, escondida, que de quando em vez tenta saltar cá para fora e viver. É um livro dramático e ao mesmo tempo irónico e com um humor ligeiro e inteligente, que retrata bem o machismo encoberto daquela época.

É um livro que se lê bem, que é interessante sem contar nada de muito novo. Para muitos de nós, esta é a história das nossas avós!  Eurídice ouve muitos nãos ao longo do caminho. Não pode tocar flauta, não pode publicar as suas receitas, não pode costurar para fora… O que Eurídice pode? Cuidar do marido e dos filhos. E tudo apenas porque é mulher. Mas até o marido começa a ter receios e dúvidas sobre os seus nãos, quando Eurídice deixa de se importar…

Uma boa leitura. Livro recomendado!

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