Escritores Portugueses [Parte 2]

Hoje venho falar-vos de mais alguns escritores portugueses, num segundo post sobre o tema, na esperança de convencer algum leitor a ler mais literatura portuguesa que, ao contrário do que muitos dizem, está bem e recomenda-se! Espero que gostem!

 

 

João Pinto Coelho

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Nascido em Londres mas tendo vivido a maior parte da sua vida em Lisboa, com algumas passagens pelos Estado Unidos, João Pinto Coelho é um arquitecto, professor de artes visuais e escritor português.
Tem duas obras publicadas, Perguntem a Sarah Gross e Os Loucos da Rua Mazur, com o qual venceu o prémio Leya de 2017 entre mais de 400 obras e do qual já falei aqui.
Tem uma escrita fantástica, as histórias têm imensa qualidade e Os Loucos da Rua Mazur é um dos melhores livros sobre a segunda guerra que já li.

“O vermelho é sempre quente, diz, e esbofeteia-me para provar que a dor é uma mancha encarnada. Tenho de saber que o verde das reinetas de setembro azeda debaixo da língua e cheira como as florestas que cercam o shtetl; a terra é castanha, mas torna-se escura quando chove, e os paus ardidos no inverno são da cor dos fatos dos homens e do cabelo da minha mãe. São pretos, insiste, como o negrume que vejo em todas as horas do dia. Mas eu não vejo, Eryk, nem sequer o negrume. Como te explico que a escuridão não é igual ao nada?” (João Pinto Coelho in Os Loucos da Rua Mazur)

“Assim que regressasse, haveria de fazer como os demais e lutar, qual animal, por um copo ou uma colher. Também poderia levar aquilo a bem e ajustar, negociar sem qualquer escrúpulo, até porque no campo tudo estava tabelado: uma malga por rapar era o mesmo que um cigarro, umas folhas de papel para escrever dava para outras tantas sopas, e por cerca de meio pão e um bocado de lábia levava-se um garoto para o beliche.”
(João Pinto Coelho in Os Loucos da Rua Mazur)

 

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José Rodrigues dos Santos

Nascido a 1 de Abril de 1964, José António Afonso Rodrigues dos Santos é jornalista, correspondente de guerra, professor universitário e um dos escritores portugueses mais conhecidos da actualidade.
Entre as suas obras contam-se Vaticanum, A Mão do Diabo, O Homem de Constantinopla, Um milionário em Lisboa, O Último Segredo, O Anjo Branco, A Filha do Capitão e várias outras.
Com uma extensa obra, os seus livros têm sabor de policial e de romance histórico. Não se lê um livro deste autor sem se aprender algo.
Querem experimentar? Comecem pelo A Filha do Capitão.

” Sabes, as pessoas passam pela vida como sonâmbulas, preocupam-se com o que não é importante, querem ter dinheiro e notoriedade, invejam os outros e esmifram-se por coisas que não valem a pena. Levam vidas sem sentido. ” (in A Fórmula de Deus)
” O capitão começou a perceber que para amar uma pessoa era preciso admirá-la. ” (in A Filha do Capitão)
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Agustina Bessa-Luís

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Agustina Bessa-Luís, nascida Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, nasceu em Amarante em 1922.
Tornou-se conhecida no mundo literário em 1954 com o seu romance A Sibila. Tem muitos títulos publicados, muitos dos quais foram mesmo adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira. Foi também vencedora de inúmeros prémios, como o Prémio Bordalo de Literatura em 1996, o Prémio Camões e o  Prémio Vergílio Ferreira em 2004, entre outros.
Em 2017 estourou a polémica, o grupo editorial Babel deixou de disponibilizar os livros da autora afirmando que “já não vendiam”. A mim, soa-me como desculpa, como irresponsabilidade. A qualidade desta autora é clara e inegável.
” É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome. “
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Lídia Jorge
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Nascida em Boliqueime em 1946, Lídia licenciou-se em Filologia Românica e fez-se escritora, publicamente, em 1980 com o romance  O Dia dos Prodígios. Seguiram-se O Cais das Merendas e Notícia da Cidade Silvestre, ambos vencedores do  Prémio Literário Município de Lisboa. Ganhou também o Prémio Vergilio Ferreira, o Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura e vários outros.

Com uma grande capacidade inventiva, Lidai é ela própria uma romancista memorável e brilhante.

“Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro. “
Lídia Jorge, (Inédito)

 

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