Hoje em Leituras à Volta do Mundo vamos viajar até Moçambique. Porquê este país? Porque temos muitos – e bons – exemplos de autores de lá. “Bora”?
Mia Couto
Mia Couto, pseudónimo de de António Emílio Leite Couto nasceu a 5 de Julho de 1955 em Beira, Moçambique. É biólogo e escritor. Ganhou já o Prémio Neustadt, tido como o “Nobel Americano”, o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra e em 2013 o Prémio Camões, entre vários outros. Entre as suas obras mais conhecidas temos A Confissão da Leoa, Jerusalém, Terra Sonâmbula, Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Pensageiro Frequente, entre outros. Contas ainda com vários títulos infanto-juvenis.
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José Craveirinha
José João Craveirinha nasceu em Lourenço Marques em Maio de 1922. Vencedor do Prémio Camões em 1991, é por muitos considerado um dos maiores poetas daquele país, mas nem só sobre a poesia corre a caneta deste autor. Dele temos livros como Maria e Hamina e Outros Contos.
Um homem nunca chora
Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
José Craveirinha
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Paulina Chiziane
Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze em 1955. A sua escrita é repleta de tradição e sabedoria, tem o cheiro da terra molhada e o tom do amor e do sexo. São histórias terra-a-terra de uma autora um pouco menos conhecida que os anteriores mas que merece sem dúvida uma oportunidade.
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Noémia de Sousa
Nascida em 1926 Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares foi uma poetisa, tradutora, jornalista e militante política moçambicana.
Súplica
Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um labirinto de xadrez…
Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota ̶ humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
̶ mas não nos tirem a música!
Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!
E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
̶ Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!
Noémia de Sousa