Qual é o Valor de uma Biblioteca? [X Encontro de Leitura Pública]

Decorreu, nos dias 15 e 16 de Novembro, o X encontro de leitura pública em Alcochete, subordinado ao tema Redes Sociais e Bibliotecas em Rede. No centro das conversações esteve, sobretudo, o papel do livro e das bibliotecas neste novo mundo tecnológico e a maneira como estas novas formas de comunicação podem mudar o mundo do papel como o temos conhecido até hoje.

No que respeita ao livro, as opiniões são divergentes. Alguns teimam que ele nunca será afectado, que o maior perigo já passou, que ter um livro na mão nunca será o mesmo que ler num ecrã. Outros há que defendem não só que o livro físico vai deixar de existir como até que estão de acordo com isso. Tomam-no como uma forma de evolução.

A verdade é que apesar do número de vendas continuar baixo em relação ao desejável no mercado livreiro, o número de livros publicados tem vindo a aumentar. Publicam-se mais livros agora do que em qualquer outra época da história. Parece sintoma de algo que está em vias de desaparecer?

Como dizia Carlos Drummond de Andrade “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede.” E como foi dito no referido encontro “enquanto não provarmos dessa água não sabemos a sede que temos”. É preciso, isso sim, dar a provar essa água às pessoas.

 

Qual é o valor de uma biblioteca?

Para quem gosta de falar em euros, um dos projectos apresentados nestes dias pode ser bastante interessante. A Calculadora – Quanto poupa se for à sua biblioteca? nasceu da campanha Somos Bibliotecas, de que falaremos mais à frente. Esta calculadora pretende, tal como diz, mostrar às pessoas quanto poupam por usarem os serviços da biblioteca pública. Feito com base em médias diz-nos, por exemplo, que poupamos cerca de 675 € se lermos 50 livros da biblioteca.

Enquanto utilizadora, essa é uma ferramenta que pode ser bastante interessante embora eu deva admitir, quase nenhum dos livros que leio se encaixa no preço médio utilizado para fazer a conta: são todos mais caros. Mas como nem tudo é perfeito e o resultado é que eu poupo ainda mais do que a calculadora me diz, vamos relevar.

Enquanto biblioteca, e apesar de ser bibliotecária, não acho que essa seja uma ferramenta que vai suficientemente a fundo.

Primeiro, porque não toma em consideração todos os pontos. Podemos dizer que houve um investimento de 1000 euros e que a biblioteca teve, com base na calculadora (que assume números de empréstimos de livros, CD’s e DVD’s, horas de Internet, actividades, entre outras) um retorno de 10 000 mas isso não enquadra as despesas que essa biblioteca teve com luz, Internet, funcionários, coisas essenciais para ter as portas abertas.  E isso facilmente é um argumento que manda a calculadora abaixo.

Depois, e na minha opinião esta é a principal razão, uma calculadora não pode de forma alguma medir o valor de uma biblioteca, porque o valor de uma biblioteca não se mede em euros. Quando um jovem de uma comunidade carenciada (que é onde efectivamente trabalho de momento) requisita um livro no valor de 13,5€ (que é o que a calculadora considera como o valor médio por livro) e o lê, o valor desse biblioteca já está muito acima dos 13,5€. É inestimável!

O valor de uma biblioteca não cabe nas folhas dos economistas nem nos bolsos dos políticos. Não é palpável. Esta nos livros que não leríamos de outra forma, nas actividades que nunca poderíamos frequentar, nas pessoas que nunca iríamos conhecer. Está em cada leitor que criou e em cada livro – de biblioteca ou não – que esse leitor lê, porque em algum momento uma biblioteca o tornou leitor. Está no centro das comunidades que agrega, que une. Para muitos, a biblioteca é o oásis no mar da exclusão, da intolerância, da solidão. É dentro dessas paredes, pagas pelo estado sim, que a magia acontece. E isso não tem – não pode ter – um preço!

O papel das bibliotecas está a mudar. Muitos ainda as vêem como depósitos de livros. Mas elas são – e têm de o ser cada vez mais – algo diferente. Hoje em dia a informação está em todo o lado, corre nos fios da informática e voa mais rápido que as águias. Já não é preciso consultar a enciclopédia luso-brasileira para perceber o que é isto ou aquilo – basta aceder à Internet.

Muito se falou há uns anos do surgimento da geração dos Millennials: os nascidos depois de 1993, que quase que já nascem a saber trabalhar com os ecrãs.

Mas a verdade a que muitos temos assistido nos últimos anos é que, por muito bem que saibam trabalhar com as tecnologias os Millennials não sabem interpretar a informação. Partilhar uma noticia numa rede social é fácil. Criar um blog, instalar um jogo, fácil. Mas como sabemos se a noticia é verdadeira? Como tornamos o nosso blog credível? Isso a maioria desta geração não sabe. E esse é, num futuro próximo, um dos grandes papéis da biblioteca pública – o de mediadora, o de professora.

As bibliotecas são cada vez menos depósitos de livros e cada vez mais uma nova espécie de ser vivo. Tem a sua própria personalidade, a sua própria forma de lidar com a vida e com a sociedade em que se incluem. Como muito foi dito e repetido neste encontro, têm de ser cada vez mais a “sala de estar da comunidade”.

Quem diz que as bibliotecas e os livros em papel estão prestes a acabar não está, de facto, a ver o panorama na sua plenitude. As bibliotecas estão a mudar e precisam de se adaptar aos novos tempos, assim como os livros. Um dia olharemos para trás para perceber que elas não são o que eram antes – e que isso foi bom. Mas mudar não é sinónimo de acabar.

 

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