O Menino de Sua Mãe – Fernando Pessoa [Poema da Semana]

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa

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Resultado de imagem para fernando pessoaFernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888 e é provavelmente um dos poetas portugueses mais reconhecidos em todo o mundo. Foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.Escreveu, ao todo, sob o nome de mais de 70 personalidades, sendo as mais conhecidas ele próprio (Fernando Pessoa) e os heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

 

 

 

 

 

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