Escritores Portugueses [Parte 1]

Andavam a pensar que me tinha esquecido de falar do 10 de Junho aqui no blog? Não! O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, não podia passar em branco.

E qual a melhor maneira de comemorar o Dia de Portugal num blog onde o tema principal é literatura? A falar de livros, claro.

Há por aí muitos leitores portugueses que não lêem literatura portuguesa. Porquê? Se querem que vos diga, não sei. Desconhecimento de autores que lhes agradem, fraco marketing por parte das editoras, hábito de ler apenas autores estrangeiros…

Por isso hoje vamos falar de escritores portugueses. Dos meus preferidos, dos que melhor conheço e que recomendo. Espero que gostem!!

 

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Sophia de Mello Breyner Andresen

O nome pode não parecer muito português, mas Sophia nasceu no Porto, em 1919. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões. Faleceu em 2004 e o corpo jaz no Panteão Nacional.

Sophia é conhecida sobretudo pelos seus poemas, que são fantásticos. Mas a sua obra literária é muito mais que os poemas. Tem várias histórias infanto-juvenis, que são mágicas e que recomendo muito aos mais novos, como a Menina do Mar, A Fada Oriana, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, entre outros. Nas minhas estantes existem vários, mas o meu preferido é o livro de contos Histórias da Terra e do Mar. Um livro com um toque de contos de fadas mas onde nem sempre o final é feliz, onde se ouve em cada página o eco das ondas e da solidão.

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As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto” Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

 

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Afonso Cruz

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Afonso Cruz nasceu na Figueira da Foz em 1971. É escritor, realizador, ilustrador e músico.

Dele podemos ler, por exemplo, as obras A Carne de Deus — Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites,  Enciclopédia da Estória Universal,  Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, A Contradição Humana, A Boneca de Kokoschka, Jesus Cristo Bebia Cerveja, entre outros. Para mim o livro mais marcante deste autor é sem dúvida o Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, sobre o qual já escrevi aqui. É uma história com um toque de magia mas que ainda assim fala de temas polémicos e actuais, sem se tornar de forma nenhuma enfadonha. Um livro para nos fazer pensar e sonhar.

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“- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.” (Afonso Cruz in Para Onde Vão os Guarda-Chuvas)

 

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José Saramago

José nasceu na Azinhaga, na Golegã, em Novembro de 1922. Ganhou o Prémio Camões e o Prémio Nobel da Literatura.

Sim, já sei, o nome Saramago assusta muita gente. A escrita dele é diferente daquilo a que estamos habituados, mais complexa, é verdade. Mas as histórias dele também são especiais.

E por especiais quero dizer fantásticas. Se há um autor português que vale a pena ler pelo menos uma vez na vida, é Saramago. São histórias diferentes, curiosas, mas que nos põem a pensar na nossa realidade de uma forma muito particular.

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Gonçalo M. Tavares é um escritor e professor universitário português. Nascido em 1970, está traduzido em mais de 50 países. Ganhou diversos prémios literários e tem obras publicadas em vários géneros, sendo algumas das mais conhecidas Jerusalém (para adultos) e o Senhor Vaalery (para crianças). É também ele um autor que nos põe a pensar em coisas importantes e que gosta de questionar pré-conceitos.

 

 

“Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.” (Gonçalo M. Tavares)

 

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2 comments

  1. Há muitos e bons escritores portugueses.
    Para além dos três que referes, eu colocaria em evidência:

    – João Aguiar (falecido em 2010);

    – Luisa Beltrão (lê a tetralogia “Uma História Privada”: http://nlivros.blogspot.com/search?q=lu%C3%ADsa+beltr%C3%A3o

    – Ferreira de Castro

    – Virgílio Ferreira;

    – João Pinto Coelho;

    – João Paulo Oliveira e Costa (“O Fio do Tempo” foi do melhor que li”;

    – Miguel Sousa Tavares;

    – Eça de Queirós (o mestre);

    – José Rodrigues dos Santos (a Filha do Capitão é genial);

    – Miguel Real;

    – David Soares;

    E claro, pese embora não goste do estilo e do autor, admito ser daqueles escritores que mereciam o Nobel: António Lobo Antunes.

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    • Há muitos, muitos escritores portugueses bons. Entretanto, continua a haver muita gente que não lê literatura portuguesa e diz que não há bons escritores. Planeio fazer mais posts sobre isto, só não falei de mais escritores para não ficar imenso. E obrigada pelas dicas, há aí alguns de que não me tinha lembrado 😉

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