Para onde vão os guarda chuvas – Afonso Cruz

“- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.”

“Como é que te vou ouvir se és mudo? Não te preocupes; cá me arranjo. Aprendi a ouvir as palavras que não se dizem; e a ler as que se formam na cabeça e juramos não pronunciar. Imagina simplesmente que falas, e eu ouvir-te-ei. Pensa que falas, e falarás.”

Quando o comecei a ler não sabia o que esperar. Foi um daqueles livros impostos por uma professora o que só por si nos deixa logo meio desanimados e sem vontade de lhe pegar. Agora, mal sei o que dizer.

Em Para onde vão os guarda-chuvas Afonso Cruz conseguiu criar uma fábula actual, onde a prosa têm poesia e, directamente ou não, se discutem os temas mais perigosos dos dias de hoje. Costuma-se dizer que não existe romance que não fale de amor, morte ou religião. Este romance tem os três e não peca em nenhum.

As personagens são tão caricatas que podiam ser reais. O mudo Badini, profundamente sábio mas que não se pode exprimir por palavras. Fazal, o pai que queria ser invisível e o seu filho, Salim, a criança que queria voar como os aviões. E a Morte, que fala com o leitor como uma velha amiga.

É um livro incrível por nos fazer olhar para o mundo que nos rodeia pelo olhar destas personagens que, apesar da morte, da guerra e da perda que passam têm o olhar cheio de magia e esperança. A brutalidade está em saber que a mensagem é real.

Lê-se de uma assentada. O fim é algo difícil de ultrapassar, dá vontade de intervir na história, de mudar aquelas últimas páginas.

 

Livro no Wook

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