Lolita – Vladimir Nabokov

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“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”

 

Um leitor mais desavisado que abra este livro e leia este primeiro parágrafo, pode cair na tentação de pensar que esta é uma história de amor. Mas não, caros leitores, esta não é uma história de amor.

Esta é uma história de perversidade, de completa e absurda perversidade. É uma história de doença, de pedofilia, de morte e do pior que há na sociedade.

Tenho de admitir que não estava a contar, quando tomei a decisão de começar a ler mais os clássicos, começar com um livro tão pesado como Lolita. Não foi provavelmente uma das minhas decisões mais brilhantes, mas hei-de ultrapassá-lo.

Lolita é um livro muito pesado e duro, escrito de uma forma genial. Vemos toda esta sordidez pelos olhos do próprio pedófilo, Humbert Humbert (não, não era mesmo o nome dele), a personagem principal no seu próprio livro. Mas esta personagem, este pedófilo, era um professor de literatura com um dom muito peculiar para contar histórias e inverter situações. Isso torna a leitura deste livro algo quase caricato.

Porque, na realidade, o leitor sabe perfeitamente o que se está ali a passar. Reconhece o crime, a violação, a sujidade. Quer vingança. Quer tirar a miúda das mãos daquele monstro. Mas a escrita dele não é a escrita de um monstro, é a escrita de um homem apaixonado. Não fosse Lolita ser uma criança e esta quase poderia mesmo ser uma história de amor.

Para dizer a verdade, ainda não tinha lido metade do livro e já ansiava que ele acabasse. Não por a escrita não ser boa (é óptima), por a história não ser boa (é óptima) ou por estar cansada do livro. Mas porque é, realmente, um livro difícil de ler.

É um livro que mexe com a nossa mente, que mexe com as nossas emoções e sentimentos. Aqui, a grande questão é se o leitor tem capacidade de discernir a situação de abuso ou se vai cair na bela conversa de Humbert e acreditar que isto é uma história romântica.

Livro muito recomendado, para ser lido com um estômago forte. Não é para qualquer um, mas as questões que levanta valem a pena!

 

Livro na Wook

4 comments

  1. Olá Anabela!
    Li Lolita há uns anos, inclusivamente já o li por duas vezes, sendo uma das quais numa leitura conjunta.
    Indiscutivelmente que é uma Grande Obra da Literatura Universal, mas e embora eu adore os autores russos, simplesmente “odeio” Nabokov.
    Pessoalmente tenho uma teoria acerca da literatura, ou seja, acho que quando um autor escreve um livro, ele é, sempre, uma espécie de autobiografia, a menos que enveredemos pela fantasia ou ficção científica, mas e mesmo assim, acredito que tenha sempre traços autobiográficos.
    Não digo isto de ânimo leve. Digo porque sou acima de tudo um estudioso da literatura e aprendi a analisar os textos que leio, embora já não me dê ao trabalho de o fazer quando elabora uma “opinião”. Dessa forma fui constatando, através de análises posteriores à vida do autor, que praticamente todas as obras são uma espécie de biografias pessoais, o autor no trama que vai traçando, coloca sempre experiências pessoais ou, no máximo, experiências que sonhava um dia passar, entendes?
    Dessa forma, e já o afirmei em diversos locais, Nabokov foi o que hoje consideramos como um pedófilo e não tenho dúvidas que Lolita foi escrito de acordo com as suas experiências pessoais.
    Um dia, um escritor com quem estava a falar, disse-me que era uma opinião perigosa, pois, de certa forma, estaria a apontar o dedo a um autor que está na galeria dos clássicos.
    Disse-lhe que não!
    Primeiro porque é uma opinião fundamentada na análise da vida do autor e depois porque no tempo de Nabokov, pedofilia era um conceito inexistente.
    Beijinhos

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    • Olá Miguel! 🙂
      Tenho de admitir que essa ideia me passou pela cabeça por diversas vezes enquanto lia o livro. Senti a personagem de uma maneira demasiado fluente, o autor parece ter tido muita facilidade com ela, percebes? Pelo menos foi essa a sensação que me deixou. Eu acredito nessa tua teoria sim, embora tenha tentado afastar esse pensamento sempre que ele vinha! Torna o livro “ainda mais horrivel”. Beijinhos!

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      • Eu gostei do livro pela forma nua e crua como o autor aborda a questão, pois a maioria das vezes a pedofilia é associada a “abuso” de crianças e no livro é claro que o personagem ama a criança, logo, penso, o que o autor quis abordar foi: será crime (na altura não o era) um adulto ficar apaixonado e desejar sexualmente uma adolescente?
        Muitas questões poderão se levantar e este é um daqueles livros que adorava “discutir” numa mesa com estudiosos de várias áreas, pois embora me enoje a pedofilia e não compreenda esse desejo por crianças, acho também que é algo natural, um pouco como o homossexualismo e apenas a nossa sociedade o transformou em crime, pois basta analisar a História do Ser Humano para vermos inúmeros de casos em que o relacionamento entre um adulto e uma criança era natural.
        Ainda hoje, já a atingir a segunda década do século XXI, há civilizações em que isso é normal.
        No entanto também confesso que uma das razões de não gostar de Nabokov é porque como pessoa conhece-se vários episódios que nada abona a seu favor e que mancharam a sua reputação em vida, mas enfim, é apenas uma percepção pessoal.

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      • Não consigo de todo concordar com o algo normal, nem comparar isso ao homossexualismo. Duas pessoas adultas estão juntas por escolha, uma criança não. Mas sim, é um liro interessante para ser discutido.

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