Sara, a viúva [Mulheres de Deus, 2]

Cancelei a TV por cabo. Agora sou só uma velha que nem TV tem.

Não é que o tenha feito por falta de dinheiro. A minha reforma, apesar de pequena, chega bem para sustentar este corpo velho. Só que aquela coisa só me trazia más noticias! Guerras, mortes, crise… agora até falam numas tais de alterações climáticas, não sei bem o que querem dizer. Mas de qualquer maneira, é só más noticias! Prefiro agarrar-me aos meus livros! Há uma voluntária, uma senhora muito simpática, que sabe que tenho dificuldade em ir à biblioteca, então traz-me ela os livros. Ela já sabe do que gosto, acerta sempre! Também não é difícil. Romances, é só o que lhe peço.

Nunca gostei de me iludir. Eu sei, meu velho, que mais dia menos dia vou ser encontrada morta, caída algures no chão da casa ou em cima da bancada de mármore da cozinha. Não me importo. Na verdade, estou ansiosa. A ideia de te voltar a encontrar é o que me dá ânimo para me levantar todos os dias.

Já não me dói, sabes. Já não me doem todos os abortos que tivemos, todos os filhos que concebemos e nunca nasceram. Deus escreve direito por linhas tortas. Também já não me dói a tua partida, embora ainda chore a tua falta. Sei que não foi um adeus, só um até já.

As pessoas estão diferentes, José. Estão tão diferentes que às vezes quase fico contente por já não estares cá para ver. Insultam-se no meio da rua, os condutores buzinam, andam umas a bater nas outras como se lutassem por espaço. Como se tivessem medo que a terra não chegasse para todos. Andam sempre com pressa, sempre de cabeça baixa a olhar para aquelas maquinetas modernas. Diz que servem para falarem uns com os outros. Mas agora é difícil falar com quem quer que seja sem ser interrompido pelos toques daquelas coisas.

Sinto falta de acordar todos os dias com o barulho das tuas cantorias no duche. Sinto falta das nossas férias na caravana todos os verões, das nossas idas à missa no domingo de manhã. Sinto falta dos teus cozinhados, queimados mas esforçados, quando tentavas surpreender-me. Sinto a tua falta, todos os dias, o dia todo. Estás sempre no meu pensamento, sempre a remoer este coração velho. Será que me vês aí de cima? Como é o céu? Sim, eu sei o que a bíblia diz, mas queria saber o que tu vês. Talvez, se soubesse o que vês, me sentisse mais perto de ti. Esta casa está vazia sem ti. Até de te ouvir a reclamar com os jornalistas da TV eu sinto falta, homem rabugento!

Cinquenta anos! Cinquenta anos contigo que pareceram tão pouco!

Estou cada vez mais morta que viva. Agora, quando me levanto, os meus ossos estalam por todos os lados. As minhas pernas fraquejam, as minhas mãos fraquejam, é como se o meu corpo não me quisesse obedecer. Não tenho a certeza mas desconfio que a minha cabeça nem sempre me obedece também.De certa forma fico contente por não estares aqui para me ver assim. E por não teres passado por isto.  Tenho dias em que, acostumada como estou às minhas dores e solidões, levo a vida como um barco ao sabor da corrente, sem me importar em remar. Mas outros, como hoje, em que dou por mim arrastada sem remos na maré, só me apetece praguejar!

Sim, José, praguejar. Praguejar contra ti, que me deixaste aqui sozinha tão cedo. Praguejar contra Deus, que não me deu filhos vivos. Praguejar contra as pessoas, que não conheço e por isso mesmo me irritam. Praguejar até contra mim própria por me ter deixado ficar aqui sozinha a praguejar! Eu sei, José, que o que digo é pecado. Que devia agradecer as minhas dádivas em vez de praguejar a minha tristeza. Mas eu estou farta destas correntes com que o pecado nos prende.

Quando eu era pequena, tudo era pecado nos olhos dos meus pais. Não havia domingo que falhassem a missa e o confessionário, não havia penitência a que não se impusessem. Depois a paixão, José, mesmo a nossa, envolta no pecado da luxuria. Tu bem sabes, eu demorei a esquecer a culpa dos meus pecados. Estavam enraizados em mim, foram-me dados pelos meus país quase como a cor dos meus olhos e cabelos. Não existe pior prisão que o pecado e a culpa.

Lembras-te daquela padaria que havia do rés-do-chão do nosso prédio? Fechou, agora é um café. Habituei-me a ir lá de manhã, quando está mais sossegado. Faz-me falta sair da casa, mas é difícil até mesmo chegar à rua. O café é pequeno, com uma decoração meio antigo, até que é bonitinho. As meninas que lá trabalham são todas muito simpáticas, de vez em quando consigo dar dois dedos de conversa com elas. Alegra-me o dia.

(continua)

Anabela Risso

 

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