Melancolia – Maria Firmina dos Reis [Poema da Semana]

Com rosto confundido com o de uma gaúcha, Maria Firmina dos Reis tem  história redescoberta | GZH

Oh! se eu morresse no cair da tarde,
De tarde amena, quando a lua vem
Chovendo prata sobre o liso mar,
Trajando as vestes, qu’a pureza tem.
Então talvez eu merecesse afetos,
Desses qu’apenas alcancei sonhando;
Talvez um pranto bem sentido, e triste,
Meu frio rosto rociasse brando.
A ti poeta ─ mais te vale a morte
Na flor da vida ─ a sepultura, os céus!
Quem sofre a terra te compreende as dores?
Teus sofrimentos, quem compreende? Deus!
Sim, venha a morte libertar-me, amiga
Da triste vida, qu’a ninguém comove…
Bem-vinda sejas ─ teu palor me agrada,
E a crua foice, que tua destra move.
E tu sepulcro, ─ tu gélido, e negro,
Eu te saúdo, oh! companheiro nu!
Talvez meus cantos te penetrem o seio,
Pálido afeto, me dispenses tu.
Não terá prantos sobre a lisa campa,
Quem peito humano a lhe gemer não tem;
Oh! não poeta: ─ se alvorada chora
Bebe esse pranto, qu’adoçar-te vem.
Inda me resta no correr da vida,
Essa esperança de morrer… a só.
Sentida ─ triste, qu’o sofrer ameiga,
Que segue o homem té fundir-se em pó.
Morra eu ao menos no cair da tarde,
A hora maga, que se pensa em Deus,
Em que se escuta misteriosos cantos,
Concertos sacros nos longínquos céus.
Então já queixas não farei da sorte,
Rirei da vida qu’amargar sentia;
Compensa as dores d’um viver sentido,
Morrer a hora do cair do dia.

In: Úrsula e outras obras. Brasília: Câmara dos
Deputados, Edições Câmara, 2018. p. 220.

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