Novas Cartas Portuguesas – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

Wook.pt - Novas Cartas Portuguesas

Livro Físico

“Bem sei que a revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os extratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada, e a primeira repressão, aquela em que veio assentar toda a história do género humano, criando o modelo e os mitos das outras repressões, é a do homem contra a mulher.”

“Quantos milhares de anos somam estes três meses?E no entanto, quando zarpaste, eu não estava (e alguma vez estarei?) segura de nada. É assim a ausência a mãe da falta, deste vazio fundo em que me vadio por aí com tudo e com todos? Ou é antes no contraste de ti com isto, o que resta, o silêncio do resto, estas noitadas por aí à balda, as cadeiras serem cadeiritas, a contestação da malta uma merda que se vende em discos e cartazes, mas o que é que eu ando a fazer no meio desta gaita toda, eu que nem sequer tenho de me desertar e antes pelo contrário, enfio, enfileiro, e entregar-me, uma ova.”

Novas Cartas Portuguesas foi um livro escrito a seis mãos, as de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta e que levaria a que as autoras ficassem conhecidas como As Três Marias. Inspirado no livro Cartas portuguesas, de Soror Mariana Alcoforado, foi publicado pela primeira vez em 1972, quando Portugal se encontrava sob o domínio da Ditadura Salazarista. Novas Cartas Portuguesas chocou a sociedade da época, revelou profundas desigualdades, foi proibido pela censura e as autoras acabaram mesmo por ser processadas e julgadas.

Eu tinha muitas expectativas quanto à leitura desta obra e tenho a dizer que ainda assim fui surpreendida. É um livro impressionante! Não é um romance nem um livro poesia ou de cartas ou ensaios. É uma antologia de tudo isso. Não sabemos qual das Três Marias escreveu o quê e isso faz parte do misticismo da obra, e tudo bem. É um livro que denúncia as desigualdades da época, que é ao mesmo tempo um pedido de socorro e um grande grito de revolta. É uma critica ao patriarcado e ao poder instituído, é um manifesto feminista, é um encorajamento e um suspiro de desespero. Algumas partes soam a revolta, outras a poesia, outras são feitas de erotismo.

Sabemos que foi um livro que causou bastante alvoroço na altura. Eu atrevo-me a dizer que ainda hoje poderia causar muito alvoroço a certas cabeças. É uma obra realmente interessante, para ler, reler e estudar mais a fundo. É um livro que foi escrito para ser um desafio, e conseguiu atingir o objetcivo. Transformou-se num símbolo contra a ditadura e a opressão e é até hoje um dos textos mais importantes da literatura portuguesa e do feminino português. E acreditem, mesmo que não sejam temas que vos interessem, a leitura vale a pena por si só.

Li o livro da biblioteca mas vou comprar um para mim. Tornou-se num dos meus livros preferidos de sempre, talvez até num dos livros da minha vida. Incrível.

10*, imensamente recomendado!

As três Marias

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta - Poemas escolhidos

Maria Teresa Horta nasceu a 20 de maio de 1937 em Lisboa. É escritora, poetisa e jornalista e também descendente da alta nobreza portuguesa, em particular da conhecida Marquesa de Alorna. É uma mulher de forte personalidade e marcadas opiniões. Se quiserem conhecê-la um pouco melhor, recomendamos esta entrevista do expresso. A sua escrita não tem meias palavras ou meias vozes e os seus textos são de um vincado e lindissimo erotismo. Dela recomendamos obras como Meninas, Estranhezas, As Luzes de Leonor e Ema.

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Maria Velho da Costa

Visão | Maria Velho da Costa: A aura da escrita

Maria Velho da Costa nasceu em Liboa a 26 de junho de 1938 e faleceu a 23 de maio de 2020. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Letras de Lisboa, foi professora, escritora e presidente da Associação Portuguesa de Escritores e curiosamento o seu pai fez parte do Corpo de Censura à Imprensa nos anos 50. Venceu o Prémio Vergílio Ferreira em 1997, o Prémio Camões em 2002, o Prémio Correntes de Escritas em 2008 e o Grande Prémio de Literatura dst em 2010. Dela temos obras como Casas Pardas, Myra e O Amante do Crato.

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Maria Isabel Barreno

Em homenagem a Maria Isabel Barreno - Embaixada de Portugal em França

Maria Isabel Barreno nasceu a 10 de julho de 1939 em Lisboa e faleceu a 3 de setembro de 2016. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, jornalista, ensaísta e artista plástica. A 8 de Março de 2004 foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Dela podem ler por exemplo O Círculo Virtuoso e Um Imaginário Europeu.

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