Contos Impopulares – Agustina Bessa-Luís

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“E a própria casa era como um búzio reflectindo rumores distantes, abafados, irremediavelmente longínquos, como brados de sereias no nevoeiro, como clamores de ressaca, o ruído sibilante, arrastado, lento, das ondas quando retiram, repuxando a areia. A própria casa era como um desses búzios de aroma salino e que contém dentro um ser encarquilhado, morto, brilhando viscosamente no seu antro de porcelana.”

“Uma boa história é a que nos comunica a consciência da nossa individualidade. Todos nós somos protagonistas duma história maravilhosa, mas só o artista pode desvendar a profundidade em que ela se desenrola, trazendo à superfície a suprema aventura da individualidade humana. Para o artista, para o psicólogo, não há almas simples. A simplicidade é um aspecto superficial do complexo, ou então a síntese duma estrutura difícil.”

 

Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís contém 14 contos da autora. São contos escritos no início da sua carreira, antes de A Sibila, o livro que a tornaria conhecida do grande público.

Há quem defenda que para um livro se tornar popular, capaz de atrair as massas, tem de ser um livro leve, estilo água com açúcar, de emoções fortes e leitura fácil. Se pensarmos assim, então estes contos têm tudo para ser impopulares, sim.

São contos que é preciso ler com atenção, com os pés na terra e a “cabeça no lugar”, de preferência num lugar calmo e silencioso. A não ser assim e dificilmente conseguiremos compreender todos os significados e introspecções que nos trazem.

A escrita de Agustina nesta obra é uma escrita floreada, bela, e ainda assim pura e simples. A escrita que só um verdadeiro mestre das palavras conseguiria.

Os contos são na sua maioria contos curtos, mas todos eles são de uma profundidade alarmante. Extremamente humanos, extremamente marcantes. São histórias que nos lembram o que de mais podre há no mundo e, ainda assim, nos encantam pela sua beleza.

A mim marcou-me particularmente O Búzio, o primeiro conto desta obra, nem sei explicar bem porquê. A sensação é a de ler o próprio búzio, mais do que um simples conto, insuportável e ainda assim viciante.

Livro muito recomendado!

5*

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