Um dia destes uma das utilizadoras da biblioteca em que trabalho fez uma observação bastante pertinente: a pouca quantidade de livros de autoras negras e livros feministas que existiam no catálogo. Eu fui, então, fazer uma lista desses mesmos títulos para sugestão de aquisição. Qual não foi o meu espanto ao constatar que o problema não é apenas as bibliotecas não terem esses títulos, mas esses títulos não estarem sequer, na sua grande maioria, publicados no nosso país.
Porquê, pergunto eu.
Maria Firmina dos Reis
Maria Firmina dos Reis nasceu a 11 de Março de 1822 na ilha de São Luis, no Brasil. O seu romance, Úrsula, é considerado o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Pioneira, abolicionista, romancista e poeta, em Portugal apenas conseguimos ler as suas obras em brasileiro, através de ebooks.
Uma Tarde no Cuman
Aqui minh’alma expande-se, e de amor
Eu sinto transportado o peito meu;
Aqui murmura o vento apaixonado,
Ali sobre uma rocha o mar gemeu.
E sobre a branca areia – mansamente
A onda enfraquecida exausta morre;
Além, na linha azul dos horizontes,
Ligeirinho baixel nas águas corre.
Quanta doce poesia, que me inspira
O mago encanto destas praias nuas!
Esta brisa, que afaga os meus cabelos,
Semelha o acento dessas frases tuas.
Aqui se ameigam de meu peito as dores,
Menos ardente me goteja o pranto;
Aqui, na lira maviosa e doce
Minha alma trina melodioso canto.
A mente vaga em solidões longínquas,
Pulsa meu peito, e de paixão se exalta;
Delírio vago, sedutor quebranto,
Qual belo íris, meu desejo esmalta.
Vem comigo gozar destas delícias,
Deste amor, que me inspira poesia;
Vem provar-me a ternura de tu’alma,
Ao som desta poética harmonia.
Sentirás ao ruído destas águas,
Ao doce suspirar da viração,
Quanto é grato o amor aqui jurado,
Nas ribas deste mar, – na solidão
Vem comigo gozar um só momento,
Tanta beleza a me inspirar poesia!
Ah! vem provar-me teu singelo amor
Ao som das vagas, no cair do dia.
Maya Angelou
Nascida a 4 de Abril de 1928 no Missouri com o nome de Marguerite Ann Johnson, foi violada pelo namorado da mãe quando tinha 8 anos e isso levou a anos de mudez. Foi uma vizinha carinhosa e o amor pela literatura que a salvaram. Aos 17 anos tornou-se na primeira motorista negra de autocarros. Foi mãe solteira e a primeira mulher negra a ser roteirista e directora em Hollywood. Foi poetisa, escritora, activista dos direitos civis e historiadora. Dele temos publicado em Portugal as obras Carta à Minha Filha e Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola. Faltam todas as outras, como (em inglês) Mom and Me and Mom, And Still I Rise, Celebrations: Rituals Of Peace And Prayer, Heart Of A Woman e Song Flung Up To Heaven.
Carta à Minha Filha
Maya Angelou tinha 17 anos quando, de uma relação fortuita e infeliz, nasceu o seu primeiro e único filho. Foi a maior dádiva de uma relação sem amor, mas teria muitas outras ao longo de uma vida extraordinária. E teria muitas filhas também: as milhares de mulheres de todo o mundo que nela encontraram uma referência, uma permanente fonte de inspiração.
Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola
Grandioso livro de memórias, Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola (1969) é uma poética viagem de libertação e um glorioso bater de asas num mundo opressivo.
Este relato inspirador da infância e da juventude da autora, nos anos 30 e 40, devolve-nos o olhar de uma extraordinária criança sobre a violência inexplicável do mundo dos adultos e a crueldade do racismo, na procura da dignidade em tempos adversos.
Octavia E. Butler
Nascida em 1947 na Califórnia, afro-americana e feminista, ficou consagrada graças aos seus livros de ficção cientifica. Dela foram publicados em Portugal as obras Madruga e Ritos da Maioridade, ambos esgotados. O seu livro mais conhecido, Kindred, que vendeu mais de meio milhão de cópias lá fora mas nunca chegou cá, mistura viagens no tempo e narrativas escravas. Nas suas histórias não falta a questão do racismo e do preconceito.
Conceição Evaristo
Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte a 29 de Novembro de 1946. Militante do movimento negro, em Potugal só temos acesso às suas obras através de ebook. Das suas obras destaco Olhos d’Água, em que a autora aborda sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Histórias de mulheres, sobre mulheres, para mulheres.
Ana Maria Gonçalves
Ana Maria Gonçalves é uma publicitária e escritora brasileira. O seu livro Um Defeito de Cor foi o vencedor do Prémio Casa de Las Américas em 2006. As suas obras não chegaram a Portugal.
Igiaba Scego
Igiaba é italiana, filha de imigrantes somalianos. Nas suas obras reina a interculturalidade, a transculturalidade e a imigração. Dela, em Portugal, apenas conseguimos ebooks em brasileiro ou inglês.
Bianca Santana
“Tenho 30 anos, mas sou negra há dez.
Antes, era morena.”
Bianca Santana é uma escritora, cientista social, jornalista e taróloga brasileira. O seu livro Quando Me Descobri Negra foi o vencedor do Prémio Jabuti na categoria de ilustração em 2016. Podemos comprá-lo em Portugal apenas em ebook e em brasileiro.
Scholastique Mukasonga
Scholastique Mukasonga é uma escritora tutsi de Ruanda nascida em 1956. É também uma sobrevivente dos massacres de Ruanda na década de 1990. Dela, não há nenhuma obra traduzida para português de Portugal, apesar de encontrarmos alguns dos seus livros à venda no nosso país (em francês e inglês).
Roxane Gay
Roxane nasceu no Nebraska a 15 de Outubro de 1974. É escritora, professora, editora e comentadora. É a autora da colecção de ensaios best-sellers do The New York Times Bad Feminist (2014), bem como da colecção de contos Ayiti (2011), do romance An Untamed State(2014), da colecção de contos Difficult Women (2017) e do livro de memórias Hunger (2017). Em Portugal temos traduzida a obra Um Estado Selvagem e eu tenho francamente a esperança de que o livro Fome também venha a chegar às nossas estantes.
Noémia de Sousa
Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares foi uma poetisa, tradutora, jornalista e militante política moçambicana. É considerada a “mãe dos poetas moçambicanos”. Viveu em Lisboa, mas devido à sua oposição ao Estado Novo teve de exilar-se em Paris. A sua obra encontra-se dispersa por jornais, revistas e claro, pela internet.
Súplica
Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um labirinto de xadrez…
Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota ̶ humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
̶ mas não nos tirem a música!
Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!
E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
̶ Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!
Noémia de Sousa
Ana Paula Maia
Ana Paula Maia nasceu em Nova Iguaçu, no Brasil, em 1977. É escritora e roteirista. Entre as suas diversas obras contam-se por exemplo Enterre Seus Mortos, Assim na Terra como embaixo da Terra, De Gados e Homens e Carvão Animal, assim como várias publicações no exterior e participações em antologias. Publicado em Portugal, não temos nada.