Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca [Poema da Semana]

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

 

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Florbela Espanca

Nascida alentejana em Vila Viçosa em 1894 Florbela foi sempre uma mulher muito sofrida, perdeu cedo a mãe, o pai nunca a assumiu como filha enquanto ela viveu, casou três vezes e sofreu diversos abortos. Na sua poesia reinam os traços das suas dores, da luta feminista e de erotismo. Suicidou-se a 8 de Dezembro de 1930.

 

 

 

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